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Suicídio: A fantasia de um final que não terá fim.

O título acima é bastante proposital. Embora, num primeiro momento, pareça que trataremos de assuntos relacionados à dogmáticas religiosas, o que não é meu objetivo aqui. Meu intuito é refletir sobre como a ideação de tirar a própria vida é tão utópica quanto egoísta, e quais as consequências disso.

Neste momento, caro leitor, é bem possível que seu espírito esteja se contorcendo ao perceber o teor das palavras “utópica” e “egoísta”. Pode ser que lhe tenha causado uma certa repulsa pela minha maneira de escrever, anexado ao pensamento de que: “se ele fosse um psicólogo de verdade, teria mais empatia e amor pelas pessoas suicidas. Afinal, ele não é o profissional que acolhe estas demandas?”

Tenhamos claro que, o fato de ser verdadeiro e direto acerca do que a ideação suicida é, não nega, necessariamente, a minha atitude empática pela pessoa que sofre. E no decorrer deste texto explicarei o porquê.

Segundo Karina Okajima Fukumitsu, psicóloga clínica, coordenadora da Pós-graduação em suicidologia da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, em sua abordagem psicológica, diz:

O ser humano é a pessoa responsável por suas próprias escolhas. Do ponto de vista de alguns clientes, o suicídio revela como a última escolha de suas vidas, pois pelo seu ato suicida, a pessoa desnuda o tamanho de seu desespero humano e não se dá mais a oportunidade de buscar seu próprio sentido de vida. (Fukumitsu, 2019)

O desespero humano mergulha os pensamentos no mar da utopia, que acredita ser o ato de pôr fim à própria vida, o que trará conforto para a alma aflita. O indivíduo não consegue ajustar-se criativamente a esta demanda de angústia, pois para ele, a impossibilidade tornou-se imperativa e ditadora. Palavras como: “não há saída”, “não tem outro jeito”, “tudo está perdido”, passam a fazer parte do cotidiano, que é percebido cada vez mais como hostil e maligno.

A dificuldade de se ajustar (solucionar a dor da angústia) deste indivíduo que sofre, se agrava quando ele se percebe solitário, experimentando uma falta de compreensão por parte daqueles que ama, e de, principalmente, uma sociedade adoecida e individualista. É neste momento que a fantasia da morte torna-se mais atraente, uma vez que a sua necessidade de acolhimento e afeto não são supridas, perde-se o sentido para a continuidade da vida.

A utopia da ideação suicida é o credo de que a morte colocará um fim no sofrimento. O egoísmo, também é, acreditar que em sua morte, apenas o indivíduo deixará de sofrer. Não se leva em consideração as consequências de sua escolha.

Em seu livro, Suicídio e Gestalt-Terapia, Fukumitsu (2019) faz uma citação de K. R. Jamison (1999), conceituando o que é suicidio. Ele diz:

Suicídio é particularmente uma maneira terrível de se morrer: o sofrimento mental que conduz a essa decisão é normalmente prolongado, intenso e irreparável. Não existe nenhuma morfina equivalente para aliviar a dor aguda, e a morte normalmente é violenta e terrível. O sofrimento da pessoa que se matou é privado e inexpressivo, faz com que os membros da família, amigos e colegas lidem com um tipo de sentimento quase incompreensível de perda, assim como de culpa. Suicídio resulta num nível de confusão e devastação que vai, na maior parte, além da descrição dos fatos. (JAMISON, 1999, p.24)

Portanto, aqui explicamos o título: “a fantasia de um final que não terá fim”; afinal, ainda que se coloque um ponto final para uma existência, as demais existências ao seu redor receberão de presente, uma dor muito maior, e uma pergunta que nunca será respondida: “por que?”

Saiba disso, nem sempre seus familiares conseguirão ter a consciência ou a percepção de como está sua dor por dentro. Normalmente, nos habituamos com as nossas rotinas, o que nos impede de enxergar e pensar com os sentimentos. Isso não quer dizer que sua família não te ame. Lembre-se de que neste mundo, ninguém nos ensina a como nos expressar, comunicar o que sentimos de maneira compreensiva e assertiva. Pelo contrário, somos muito mais repreendidos e reprimidos quando se trata de expor sentimentos.

Se a sua angústia é incomunicável ao seus, procure aqueles que se dedicam a conhecer e aceitar as angústias das pessoas. Se sua voz não consegue ser ouvida pelos seus, permita que alguém que se dedica a ouvir todas as vozes escute a sua.

O comportamento de autocomiseração nunca foi efetivo ou atrativo, embora seja compreensível em pessoas que nunca experimentaram, talvez, a dignidade do afeto de outro ser humano. A vida sempre terá um sentido, mesmo em meio ao sofrimento intenso. Para você, querido leitor, indico a leitura do livro : “Em Busca de Sentido”, de Viktor Frankl. Ela poderá trazer grandes esclarecimentos acerca da sua tentativa de compreender o porquê experimentamos a frustração e as perdas.

Se você não consegue ser um suporte para si mesmo (ser resiliente), pois percebe-se desnutrido emocionalmente e completamente abatido e sem esperanças, esteja ciente de que será necessário buscar uma ajuda complementar, um heterosuporte. Alguém capaz de acolher sua dor, de compreender empaticamente suas dificuldades, e principalmente, ser uma escuta ativa para sua voz que grita por socorro.

Ainda assim, lembre-se de que o outro é apenas um auxílio, pois você continuará sendo o detentor das próprias escolhas e responsabilidades. Você é sua principal linha de defesa, e a sua peregrinação para a melhora começa pela busca de uma companhia humana que o aceite e o ame. Se não o encontrar entre os seus, o que te impede de investir seus recursos e tempo em um profissional que dedicou a vida para auxiliar aqueles que sofrem?

Há também, canais de ajuda emergencial, como por exemplo, o número 188 do Centro de Valorização da Vida (CVV | Centro de Valorização da Vida), onde você poderá encontrar um recurso urgente para amenizar a angústia, e ter uma relação dialógica capaz de ajudá-lo em meio à tensão da ideação.

Para finalizar, quero te levar a refletir sobre o que mais tem faltado a uma pessoa que sente o desejo de pôr fim em sua vida, a falta de sentido ou propósito. Aqui, sugiro a leitura do livro “A Estrada para o Caráter” de David Brooks, onde faz uma reflexão muito importante e contracultural acerca de propósito. Ele diz:

Hoje, os oradores dizem aos graduandos no discurso de formatura para seguir sua paixão, confiar em seus sentimentos, refletir e encontrar seu propósito na vida. A suposição desses clichês é que, quando você está descobrindo como conduzir sua vida, as respostas mais importantes são encontradas no íntimo de cada um. Você deve fazer algumas perguntas: qual é o propósito da minha vida? O que eu quero da vida? (BROOKS, 2019)

Por esse caminho, pensamos a vida de maneira egoísta e simplista, trazendo a concepção de que a vida precisa me servir de algum propósito para que eu me sinta completamente satisfeito em vivê-la.

Mas há outra maneira de encontrar sentido e propósito para a vida. Uma pergunta que inverte o lado e nos traz a responsabilidade e um porquê viver. Aqui deixo uma sugestão, dada por Brooks ao citar a história de Francis Perkins: ao invés de perguntar qual é o propósito da minha vida?, pergunte: O que a vida quer de mim? O que minhas circunstâncias me impelem a fazer?

Veja, você possui potências, habilidades, competências, que nenhum outro indivíduo possui. Você acessa lugares que talvez outras pessoas não acessarão. Embora seja difícil para você enxergar na atual condição de dor, esta pergunta pode levá-lo a uma nova perspectiva sobre a sua existência. O que a vida espera de você? Com o que você pode contribuir para que a existência de todos se torne mais leve e salutar?

Acredite! O mundo precisa de você. Este é o verdadeiro sentido da sua existência. Se você não consegue reconhecer esta sua potência, entre num processo de autoconhecimento e vá se maravilhando com o que você pode se tornar, a partir daquilo que já é. Que você, caro leitor, possa enxergar a luz que existe no seu interior, e se render à Ela.

Deixo aqui o meu abraço, e minha expectativa de que ao ler minhas palavras, você seja impactado e desafiado para a mudança de sua situação de dor para

uma circunstância de ofertar o melhor de si.

Saudações de um psicólogo!

Daniel M. Zane

A Editora Quitanda sugere para Leitura: Descobrindo o poder de ser filha, da autora Larissa Couto. https://editoraquitanda.com/produto/descobrindo-o-poder-de-ser-filha/ e Pertencer: uma busca por amor e identidade, da autora Aline Meyer. https://editoraquitanda.com/produto/pertencer-uma-busca-por-identidade/ Todos esses livros você encontra no catálogo da editora.

Referências:

BROOKS, David. A Estrada para o Caráter / David Brooks; traduzido por Wendy Campos. – Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

FUKUMITSU, Karina Okajima. Suicício e Gestalt-terapia / Karina Okajima Fukumitsu. – 3. Ed. – São Paulo: Lobo, 2019.


FRAZÃO & FUKUMITSU. Quadros clínicos disfuncionais e Gestalt-terapia / organização Liliam Meyer Frazão, Karina Okajima Fukumitsu. – São Paulo: Summus, 2017

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