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EM BUSCA DA VERDADEIRA LIBERDADE

Um peixe absorve oxigênio da água, não do ar, então só fica livre se estiver restrito à água. Se um peixe é ‘libertado’ do rio e colocado na grama, sua liberdade de movimento e até de vida é destruída. A verdadeira liberdade é encontrar as restrições certas, aquelas para as quais você foi projetado[1]

A busca pela liberdade, tem sido evocada como uma das coisas mais importante de nossa geração. O ser humano é assombrado pela sensação de estar engaiolado. O desejo de querer voar é quase que sagrado, disso, presume-se que é batendo as asas, ou pegando a estrada que se encontrará a liberdade, longe de qualquer regra ou restrição.

O filho pródigo e a busca pela liberdade

No livro de Lucas 15.11-31, Jesus é criticado (v.2), por receber e comer com pecadores, em resposta aos seus críticos, fariseus e escribas, Jesus conta uma série de parábolas que têm como cerne mostrar como os céus festeja quando um pecador se arrepende, ou seja, quando encontra a verdadeira liberdade. Dessas parábolas, uma é sobre o filho que pede sua herança e se manda da casa do pai para viver a vida a sua maneira. Depois de receber sua parte da herança, diz o texto que “o filho mais moço, juntando todas as suas coisas, partiu para um país distante (v. 13a).

Essa imagem, do filho indo para longe, se desprendendo de absolutamente tudo que o criou, suas relações afetivas, tradição, cultura e religião, traduz a expressão mais concreta da busca por liberdade irrestrita, afinal de contas, é na “ausência de restrições” onde ele achava que residia a liberdade. Isso jamais aconteceria na casa do pai, isto porque, liberdade, é para o filho pródigo viver longe do olhar que coloca limites em seus apetites desenfreados.

A busca por autonomia, por novas experiências, novos gostos, garantia de se falar tudo o que se pensa, de se relacionar despretensiosamente sem nenhum compromisso, são como símbolos que dizem para nós, aqui estão as chaves para a liberdade, afinal, sou livre quando me torno senhor da minha própria vida.

É assim que, ao se desprender de tudo que o aprisionava, o filho pródigo, usa de sua liberdade recém-adquirida para se curvar diante de outros deuses. Diz o texto, “desperdiçou seus bens vivendo irresponsavelmente” (v. 13), não só isso, “esbanjou os bens com as prostitutas” (v. 30). Em nome da liberdade, sacrificou no altar dos falsos deuses sua dignidade, afinal, ninguém que vive irresponsavelmente vive bem. Temos aqui uma ideia de liberdade que consiste em:

“[…] O direito de ser estimulado, entretido e absorvido, tudo isso nos termos de alguém. Liberdade é se libertar de algo, e a maneira de se libertar de algo é partir”[1] Assim como o filho pródigo, nossa compreensão de liberdade também consiste em determinarmos o que é melhor para nós. Não queremos que ninguém coloque limites, se estamos no controle e sabemos o que é melhor para nós, então somos livres. Só “saberei que sou livre quando puder decidir o que é bom para mim, quando toda escolha for uma página em branco de oportunidade e possibilidades”[2].

Quando a pretensa liberdade me escraviza

De fato, podemos dizer que a noção de liberdade abraçada pela nossa geração é marcada pelo individualismo, que se traduz numa espécie de “liberdade de autenticidade”. Importa, que cada um, escolha por si mesmo o seu próprio modo de vida, suas convicções e valores, visto que tudo depende somente de mim. Só quando me liberto de tudo aquilo que restringe minha liberdade, e me fecho em meu próprio coração, é que passo a ser eu mesmo, ou seja, é que me sinto livre e autêntico. Charles Taylor[3], chama isso de as fontes da autenticidade, ou seja:

Ser fiel a mim significa ser fiel a minha própria originalidade, e isso é uma coisa que só eu posso articular e descobrir. Ao articular isso eu também me defino. Estou realizando uma potencialidade que é propriamente minha. Essa é a compreensão por trás do ideal moderno de autenticidade e dos objetivos de autorrealização e autossatisfação nos quais são usualmente expressos. Esse é o pano de fundo que confere força moral à cultura da autenticidade, incluindo suas formas mais degradadas, absurdas ou triviais. É o que dá sentido à ideia de “fazer suas próprias coisas” ou “encontrar sua própria realização”.

O que resulta disso é um ser humano centrado em si mesmo, pobre de significa, que por sua vez não se preocupa com os outros, com o bem comum, muito menos com a comunidade na qual faz parte.  Não obstante, na busca pela liberdade, longe do pai e de tudo que impunha limites, o filho prodigo não poderia ignorar o quão sua vida se tornara exausta e vazia. A eliminação de restrições, não trouxe liberdade, antes, punição e desgosto.

As paredes da casa do “pai” incomodavam e limitavam sua existência. Desejando ardentemente se ver livre delas, o filho rumou para um país distante, porém, liberdade sem responsabilidade é morte certa. Diz o texto de Lucas (v.14) que, estando no país da liberdade, o filho gastou tudo e, em seguida, houve naquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade”. Ao se idolatrar a liberdade, desejando ardentemente ser eu mesmo, mergulho na sensação de que estou me perdendo, minha vida e identidade se dissolvem e escorrem entre meus dedos.

A busca pela liberdade levou o filho pródigo ao chiqueiro, lugar de animais e não de humanos, ao ponto de desejar “encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, comida de animais e não de humanos, mas ninguém lhe dava nada” (v. 16). É no fundo do posso, longe do pai, no deserto mais escuro, que ele passa a reformular seu entendimento de liberdade. Se não encontro longe do pai o que tanto desejo, então, posso estar equivocado a respeito do que significa ser livre.

Quando você é consumido pela sua própria liberdade e entende que a perda da cerca só significava que você acabaria na sarjeta, começa a imaginar se a liberdade é tudo o que há – ou se ela pode ser algo além da ausência de restrições e da multiplicação de opções[4]

Somos livres quando nos perdemos no abraço acolhedor do Pai

Em um momento de autopiedade a ideia de liberdade da qual o filho pródigo se agarrava é completamente enfraquecida. “Ele, porém, caindo em si, disse: quantos empregados de meu pai têm fartura de comida, e eu estou aqui passando fome” (v.17). O caminho que traria liberdade o tornou miserável e num estado de saturação passa então a repensar suas escolhas. “Vou me levantar, irei até meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti” (v. 18). Assim como Agostinho expressa em suas confissões, o filho prodigo também compreende que “A liberdade que adorava era meramente a de um fugitivo”.

Não encontramos liberdade fugindo das restrições de casa, das regras impostas pelo Pai. Não é desejando ardentemente o poder, privilégios e o sucesso que encontraremos a liberdade. Liberdade não é meramente ser livre de algo, mas, livres para algo. O que por sua vez exige renunciar nossa autonomia para abraçar um tipo diferente de dependência.

O filho pródigo se lembrou de algo mais forte que sua força de vontade, mais forte do que sua cede desenfreada por liberdade. A graça que superabundava a casa do Pai, lembrou-se de que só seria verdadeiramente livre se um outro alguém lhe desse a possibilidade de ser livre. “Levantando-se, foi para casa do pai” (v.20). Pela sua experiência, o filho compreendeu que ele mesmo não era suficiente para garanti sua liberdade. É olhando para fora de nós mesmos que encontramos a liberdade. Na casa do Pai, há graça abundante e transbordante, desejar essa graça é o começo para se experimentar a verdadeira liberdade.

Se você chega ao fim de si mesmo, imagina se há ajuda e se surpreende ao se encontrar, às vezes, esperando por uma graça do além, é um sinal de que a graça já está operando. Continue pendido. Você não precisa acreditar para pedir. É o seguinte: você também pode pedir ajuda para acreditar. Desejar ajuda é sua própria confiança nascendo. O desejo da graça é a primeira graça. Chegar ao fim de sua autossuficiência é a primeira revelação[5]

E levantando-se, foi para casa do pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, enchendo-se de compaixão e, correndo, lançou-se ao seu pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e contra ti, não sou mais digno de ser chamado teu filho. Mas, o pai disse aos servos: Trazei depressa a melhor roupa e vesti-o; coloquem-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; (v.20,21,22). O filho enfim, achou a liberdade ao se perder na dependência de outro, ou seja, no Pai.

É na dependência e na confiança que somos livres. Ao compreender que a verdadeira liberdade estava em casa do pai, o filho pródigo, passa a ver as restrições de forma diferente. As paredes já não são mais cercas que o limitam, mas andaimes que o seguram, dando proposito e equilíbrio. No pai, compartilhador e doador, o filho foi acolhido com misericórdia e amor transbordante, vindo a experimentar uma liberdade que jamais teve.

A graça é a chave para a liberdade e, só encontramos graça naquele que é o supremo libertador do mundo, Jesus Cristo. Quando o filho cai em si, lembra que no pai há perdão, pois, só quem é perdoado é verdadeiramente livre. Livre para ser e existir de acordo como Deus o criou, imagem e semelhança do criador. Quando somos dele, e nos perdemos nele, é que somos plenamente nós mesmos, então, livres. É quando somos encontrados que somos livres.

 

MARTINHO CHINGULO

 

REFERÊNCIAS

SMITH, James K. A. Na estrada com Agostinho: uma espiritualidade do mundo real para corações inquietos. Trad. Elissamai Bauleo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. Trad. Talyta Carvalho. São Paulo: É Realizações Editora, 2011.

[1] SMITH,2020, p. 77.

[2] Ibidem, p.77.

[3] TAYLOR, 2011, p. 38.

[4] Ibidem, p. 79.

[5] SMITH, 2020, p. 83.

[1] [1] TIMOTH KELLER, disponível em: https://mobile.twitter.com/timkellernyc/status/1487146713160818689?t=lSnA5BQcy594k1mac2WATA&s=08

 

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